08 de junho de 2017 às 04:00

Como seus dados podem ir parar em sites como o Telefone.Ninja?

Você também se assustou com dados como telefones (fixo e celular), endereço (residencial e comercial) e até e-mail ao alcance de uma busca no site Telefone.Ninja? Pois é, a presença dessas informações incomodou vários brasileiros nesta semana e uma pergun

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Site "Telefone.Ninja" causou polêmica

Você também se assustou com dados como telefones (fixo e celular), endereço (residencial e comercial) e até e-mail ao alcance de uma busca no site Telefone.Ninja? Pois é, a presença dessas informações incomodou vários brasileiros nesta semana e uma pergunta ficou na cabeça de muita gente: como meus dados foram parar lá?

A página diz que os dados são disponibilizados pelas próprias operadoras de telefonia e até oferece um link para pesquisa de clientes em páginas específicas da Vivo, TIM, Oi e Embratel. Contudo, não fornece detalhes de como conseguiu esses dados, o que causa suspeita. Especialistas citam várias maneiras que os dados podem ser obtidos além da simples justificativa das "operadoras".

"Ás vezes algumas informações podem estar disponibilizadas em sites públicos, ás vezes alguns sites de prestação de serviços públicos que o indivíduo se cadastrou ou qualquer base de dados que o usuário preencha e acaba encaminhando para terceiros. Ou por mineração de dados, que é acessos diretos em sites específicos com objetivo de extrair dados de pessoas cadastradas", explica a advogada Gisele Truzzi, especialista em Direito Digital da Truzzi Advogados.

Em contato com o UOL Tecnologia, as assessoras da TIM e da Vivo, duas das maiores empresas de telefonia do Brasil, afirmaram que as operadoras só se manifestarão sobre a questão por meio do sindicato da categoria.

O SindiTeleBrasil (Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móbel Celular e Pessoal) disse que segue determinações legais vigentes, entre as quais a Lei Geral de Telecomunicações e o Marco Civil da Internet. A entidade também alegou que as prestadoras não comercializam os dados de seus clientes e que não existe uma "lista pública de telefones móveis das prestadoras".

Em nota, o Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) defendeu uma "investigação para esclarecer se essas informações vieram de vazamentos de bancos de dados, de interceptação ilícita ou de repasse voluntário por parte das operadoras de serviços de telecomunicações". A instituição ainda avalia notificar autoridades.

Outra questão que paira é se a atividade do site, de divulgação de dados, é legal ou não. A advogada Cristina Sleimam, especialista em direito digital, afirma que a questão é discutível e depende de como os dados foram obtidos.

"De onde coletam os dados? À medida que fazem apenas uma catalogação, se são robôs que coletam tudo que se encontra na internet e está aberto ao público, não estaria fazendo nada de ilícito. Mas de onde vem esses dados, é de forma aberta? Se eu tenho as informações comigo, posso divulgar. O problema é que ninguém sabe de onde vem os dados", opina.

Já Gisele Truzzi é mais enfática ao negar a legalidade da página. Para a advogada, o cruzamento de diversos dados de fontes diferentes já seria ilegal. "Por mais que essas informações sejam públicas e extraídas de site ou abertas para consultas públicas, o que o site faz indevidamente é o cruzamento dessas informações. Eles não poderiam fazer isso", afirma.

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A advogada cita a Constituição Federal e o Código Civil em artigos que versam sobre o direito à imagem e privacidade como argumentos no caso. As duas advogadas e o Idec concordam, contudo, que o Marco Civil da Internet protege a divulgação de dados no artigo que define que é necessária a autorização do usuário para a divulgação de dados para terceiros.

O UOL Tecnologia está em contato desde a última terça-feira com a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), mas a agência ainda não respondeu aos questionamentos da reportagem – o site diz basear sua atividade em legislações da agência que versam sobre listas telefônicas de clientes de operadoras.

O próprio "Telefone" oferece uma opção do usuário retirar seu nome das buscas de maneira simples, clicando em "solicitar pedido de privacidade e não exibição dos dados desta página" em sua busca. Contudo, alerta que os dados podem voltar ao sistema em atualizações feitas pelas operadoras e que os usuários devem procurar as prestadoras para pedir que os dados não sejam disponibilizado. Mas nem isso pode ser eficaz.

"Muitas vezes por mais que você diga no cadastramento que não sejam divulgados aqueles dados isso acaba vazando. O meu mesmo estava ali nesse site alguns telefones fixo e celular que já tive e lembro muito bem que quando solicitei essas linhas frisei que não fosse divulgado", cita Truzzi.

O relato da advogada aumenta a probabilidade de que os dados não tenham sido repassados pelas próprias operadoras, como a página alega. Eles podem ter vindo de consultas a outros dados, públicos ou não, ou vazamentos ou vendas de dados de clientes. A advogada Cristina Sleimam também alerta para os internautas fiquem atentos em cadastros na web.

"Tem que estar atento a onde você faz seu cadastro e que tipo de informação fornece. Se está comprando determinado produto, que informação é coerente você oferecer? Estamos atentos ao que fornecemos nesses cadastros e o que pode ser feito? É uma coisa que não sabemos, não lemos os termos de uso e muitas vezes o usuário dá ok", analisa.

A pedido do UOL Tecnologia, a Kaspersky investigou a página e descobriu que está hospedada em Budapeste, na Hungria. Para a advogada Cristina Sleimam, isso por si só indica uma "má fé" do responsável por ela. Já Truzzi ressalta que isso complica qualquer possibilidade de ação contra o site.

"Esse provedor estando em outro país faria o processo ser internacional, com um trâmite muito mais demorado e custoso para qualquer pessoa. Aí seria muito mais prático as autoridades brasileiras como Ministério Público e Polícia Federal tomarem uma atitude em conjunto contra esses sites por meio de acordos internacionais", analisa.

O Telefone.Ninja, contudo, não é único. Muitos sites que oferecem o mesmo serviço existem na internet brasileira e já causaram polêmica, como a envolvendo o "Tudo Sobre Todos" em 2015 – o site ficou fora do ar por um tempo, mas já voltou a oferecer o serviço. A Kaspersky ainda identificou na mesma hospedagem do "ninja" páginas com diferentes nomes oferecendo consultas semelhantes – provavelmente todas do mesmo dono.

O UOL Tecnologia enviou e-mail pelo contato do site solicitando uma entrevista, mas ainda não obteve retorno. 

A Câmara dos Deputados tem em tramitação vários projeto que versam sobre a proteção dos dados pessoais de brasileiros. O PL 4060, de 2012, visa dispor do tratamento de dados pessoais dos brasileiros e está tramitando com prioridade, mas encontra-se atualmente em uma comissão especial. A ele, foram juntadas outras duas proposições mais recentes.

São elas o PL 5276/2016, que também dispõe sobre o tratamento de dados pessoais, e o PL 6291/2016, que altera o Marco Civil para proibir o compartilhamento de dados dos assinantes de aplicações na internet. 

Fonte: UOL

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